Na entrada de El Chaltén passamos pelo posto de informações turísticas e ali formaram-se dois grupos: Maya e Ramon (que fariam uma trilha rápida, pois pretendiam voltar no mesmo dia para El Calafate, no último ônibus, das 19hrs) e nós dois, acompanhados por Alenah. Nos instalamos no Hostel Del Lago e preparamos nosso inédito macarrão com creme de cebola e atum. Saborosíssimo! (A fome era negra.)
Tivemos disposição, apesar de desencorajados por um casal - um brasileiro e uma argentina - de caminharmos até a Laguna Capri. A caminhada contemplava um trajeto de 7,5km somente de ida, sendo uma subida chata e cansativa. A lagoa era formada por uma água extremamente azul e limpa e ninguém arriscava banhar-se em suas águas geladas. O fundo do lago é pedregoso dificultando até mesmo molharmos os pés. A água é extremamente saborosa e na temperatura ideal para o consumo. A caminhada de volta foi mais leve, afinal, era descida, porém, os pés estava detonados.
Tirando o mascote do hostel, o restante era péssimo. Muito péssimo. Ficamos num quarto compartilhado com três israelenses barulhentos, sendo que um deles fungou, assoou o nariz e vomitou a noite inteira. Nojo!
23/01
Thales desmaiou de sono na noite anterior, mas em compensação, não dormi quase nada o que me fez amanhecer de péssimo humor. Tínhamos a intenção de ficar em El Chaltén por quatro dias, concluído que naquele hostel não passaríamos um dia a mais sequer, e o elegemos como o pior (pelo menos até então!).
Tomamos nosso desayuno, e ainda pela manhã, nos despedimos da Alenah, que seguiu para El Calafate. Mudamos da água para o vinho, e nos hospedamos no Hostel Los De Trivi, pequeno, muito limpo e aconchegante. Predominava no hostel famílias de hóspedes, um pessoal mais bem educado e que, assim como nós, gostavam de um dedo de prosa. Cozinhar neste hostel nos proporcionava momentos descontraídos, os quais aproveitávamos para praticar ao máximo o nosso espanhol.
Fato até então não narrado, mas que merece consideração, foi que emprestamos um celular para servir como despertador para Robert, um brasileiro, paulista, hospedado no mesmo hostel que nós em El Calafate. No meio da viagem demos conta que havíamos esquecido de pegá-lo. Consideramos voltar mas o telefone era demasiadamente antigo, e a não ser pelos contatos salvos na agenda, não pagaria nem mesmo o combustível. No caminho, de El Calafate à El Chaltén, Maya, que neste momento ainda se encontrava conosco, sugeriu enviá-lo através de um coletivo quando regressasse à El Calafate. Certo foi que pela dificuldade de comunicação (internet lenta e não dispúnhamos de telefone comunicável), demos o celular como perdido quando, ao realizar o check in no Hostel Los De Trivi, recebemos surpreendentemente em mãos o telefone do Thales, com um gentil bilhete, assinado por Robert: “Ei Brasil!”. Robert nos localizou, graças ao post que deixei no facebook de Maya, informando que nos hospedaríamos neste hostel. De qualquer forma, consideramos muita gentileza de sua parte, e ficamos imensamente gratos.
Acomodamos nossas bagagens, compramos uma Quilmes para refrescarmo-nos e seguimos rumo à Laguna de Los Três, um pouco na expectativa de reencontrar nosso companheiro Robert, que também seguira para lá.
A caminhada até a Laguna de Los Três, iniciada a partir do Hotel El Pilar, por ser dividida em duas fases: uma longa porém sem grandes variações altimétricas, margeando um rio de águas cristalinas e um bosque com trilhas bem demarcadas. A segunda parte, amigos, contempla uma trilha com ascendência quase vertical, muitas pedras soltas, sob um sol escaldante.
Perdemos as contas da quantidade de cumprimentos “Holla” (inclusive,da próxima vez vamos até silcar uma camisa com essa saudação) e das expressões de incentivo dos que regressavam, dizendo faltar pouco e que o visual realmente vale à pena. Pensei em desistir no meio do caminho, pois estava com duas bolhas que muito me incomodavam e minha falta de ar e cansaço estavam incontroláveis.
No percurso vimos crianças, adolescentes e surpreendentemente, idosos super bem dispostos. O caminho de volta, como de praxe, foi mais tranquilo. A caminhada totalizou 25 quilômetros de ida e volta, que fizemos, incluindo o tempo que paramos para descansar e para contemplar a paisagem em 8h30.
Chegamos ao hostel às 22hrs e o sol ainda não havia se posto. Nesta noite, resolvemos investir no hot dog, com nos demos um merecido prêmio: duas Quilmes estupidamente geladas. Um brinde à nós! Por volta da 00h30, fomos nos deitar, e prometemo-nos um dia seguinte de folga, descanso, sombra e água fresca.
24/01
Acordamos tarde, tomamos um café na “panaderia” (padaria) e fomos às compras dos ingredientes para o nosso almoço: Bife, arroz e salada de tomate e pimentões. Comidinha bem temperada e que acompanhado por uma cerveja se transformou num catalisador para um sono à tarde. Acordamos por volta das 18hrs e seguimos por um passeio pelo Lago Del Desierto, 70km de rípio. Quase ao chegarmos, tivemos um pneu furado. Tal desprazer somado à uma paisagem não tão deslumbrante, nos fez regressar pouco tempo depois. Chegando em casa, nos apressamos em fazer nosso jantar e fomos dormir, pois na manhã seguinte faríamos uma caminhada com escalada no gelo.
25/01
Chegado o grande dia. Havíamos contratado um passeio exclusivo da agência Patagônia Turismo, o Ice Trek Pro, que se trata de uma caminhada no gelo seguido de escalada, com duração de 9hrs, incluindo o tempo da navegação até o Glaciar Viedma.
O embarque no barco foi às 8h45, pontualmente, e fomos munidos de algumas guloseimas, água, agasalhos, toucas e luvas. Esperávamos um frio imenso. O desembarque foi em um porto natural, após 1h de navegação. Fomos orientados ao uso de botas apropriadas ao trekking, e sob a rocha calçamos os grampones e nos vestimos com o cinto para escalada e o capacete. Também recebemos as instruções de segurança e damos início à nossa grande aventura.
Caminhar sob o gelo no início é difícil. Os grampos não possibilitam que os pés se flexionem, e quanto maior a superfície de contato maior é a aderência dos grampones sob o gelo evitando nossa queda e escorregamento.
Visualmente, o gelo apresenta um aspecto bem granulado, como daqueles que compramos em postos de gasolina e supermercados. Cerca de 20 a 30cm abaixo da superfície, este apresenta consistência bastante sólida e coloração que, conforme a incidência da luz solar varia entre vários matizes de azul.
Há de se observar a técnica para se locomover no gelo, tanto em aclives quanto em declives, pois um escorregamento pode ser fatal, devido as fendas existentes; e apesar de não aparecer, o gelo é extremamente cortante.
Caminhamos até o ponto determinado pelos instrutores, para a nossa escalada. A corda de segurança é fixada por meio de uma espécie de parafuso atarrachado ao gelo, que suporta cerca de 800 quilogramas. O ponto de fixação é feito no gelo sólido (abaixo da superfície granular) e deve ser constantemente monitorado pois o cisariamento pode fazer com que ele se desprenda. Para minimizar este efeito que é somado ao efeito do sol se faz uma espécie de “montinho de gelo” sobre o ponto de fixação.
O mecanismo de segurança é bem parecido com o de escalada em rochas, com um profissional fazendo a segurança de quem está escalando, através do travamento da corda por meio de rosquetes. A escalada em si foi realizada com uma espécie de um martelo, em cada uma das mãos: pontiagudo em uma de suas extremidades, que se fixava ao gelo, sendo a outra extremidade utilizada para quebrar o gelo, se fosse o caso.
Os grampones possuem dois “dentes” frontais, os quais travavam os pés no gelo, durante a escalada.
O procedimento para a escalada, corresponde a quatro movimentos básicos:
1) Movimentação do braço direito, cravando o martelo no gelo, em altura acima da cabeça, braço esticado formando um ângulo aproximado de 15º com relação a cabeça;
2) Mesmo movimento com o braço esquerdo, na mesma altura marcada pelo martelo do braço direito;
3 - 4) “Chute” com o objetivo de cravar os grampos frontais no gelo, num passo vertical não maior que 25cm, sendo primeiro o pé direito e depois o esquerdo.
Após os quatro movimentos, a pélvis sempre deve estar direcionada para a frente, mantendo as pernas esticadas. Jamais os joelhos podem ficar flexionados.
Formávamos um grupo de 13 turistas, composto por criança, jovens com o estereótipo atlético (outros nem tanto), obesa e idoso. A escalada não é algo tão trivial para um iniciante, mas acreditamos que resguardadas as limitações de cada indivíduo é acessível à todos. Vale ressaltar a importância de um acompanhamento técnico, pois fomos muito bem acessorados por uma equipe de três instrutores pacientes e bem treinados.
À medida que escalávamos, também aquecíamos nosso corpo e nos protegíamos do frio. As três horas de escalada passaram muito rápido. Após a escalada, fizemos mais caminhadas sobre o gelo do Glaciar Viedma e sob o mesmo, brindamos com um licor Scoth, resfriado pelo gelo patagônico. Tim! Tim!
Para encerrar nossa aventura, tivemos a oportunidade de adentrar uma caverna no contato entre a rocha e o gelo, que apresentava uma coloração que nunca vimos: o azul, misturado à água e à iluminação natural formava um jogo de cores deslumbrantes.
A experiência foi única e muito prazeirosa. Nenhuma foto consegue remeter a sensação que tivemos.
Voltamos para o hostel, lanchamos e ao invés de ir dormir para recuperar nossas forças, resolvemos nos despedir de El Chaltén com chave de ouro, e assistimos à um clássico Argentino: Boca e Rivier, acompanhado daquela Quilmes trincando de gelada!
Da Argentina levaremos muito mais do que recordações dos belos passeios que fizemos, das paisagens e dos bons momentos de bate papo... Levaremos saudades da cerveja que tanto adoramos e comentamos, como se pode observar em vários posts.
26/01/12
11h30 e partimos de El Chaltén. A madrugada na cidade foi de muito frio e vento. Amanheceu com muito sol, chuva fininha e vento forte e constante.
Nesta cidade passamos mais tempo que nas demais cidades visitadas. Já era planejado, pois sabíamos do trekking e tínhamos idéia do que gostaríamos de fazer por aqui. Sem falar que nos familiarizamos com a cidade, com o hostel, e nos sentimos muito em casa. Sensação de realização e paz de espírito. Um mix de vontade de ficar com saudade de casa.















